Wagner Moura sobre o filme Marighella: “Estou preparado para a porrada”

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Para Wagner Moura, "Marighella" é o primeiro filme que se opõe a quem chegou no poder no Brasil. Foto: José Eduardo Bernardes

“Cuidado que o Marighella é valente”, alertou um agente da repressão antes de umas das muitas tentativas de captura do líder revolucionário durante a ditadura militar”. A passagem da biografia de Carlos Marighella, escrita por Mário Magalhães, retrata uma das principais facetas do protagonista do filme dirigido por Wagner Moura, que estreia nos cinemas nacionais, depois de dois anos de espera, no próximo dia 4 de novembro. A data marca os 52 anos do assassinato do guerrilheiro brasileiro.

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A estreia mundial do longa ocorreu no Festival de Berlim de 2019, dias antes do ator ter concedido esta entrevista ao Brasil de Fato. No festival, o filme foi aplaudido de pé. Ele também por outros inúmeros festivais internacionais em Seattle, Hong Kong, Sydney, Santiago, Havana, Istambul, Atenas, Estocolmo e Cairo.

A demora pela estreia nos cinemas brasileiros foi considerada pelo ator como um episódio de censura e de pressão da gestão da Agência Nacional do Cinema (Ancine) no governo Bolsonaro. Isso porque a Diretoria Colegiada da Ancine vetou um pedido de reembolso de mais de R$ 1 milhão, feito pela produtora do filme, como montante responsável pelo investimento na comercialização do longa. Esse tipo de reembolso via Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) é um direito a que as grandes produções cinematográficas nacionais podem ter acesso.

Durante as filmagens, Wagner Moura dialoga com Seu Jorge, que interpreta Mariguella. Foto: Divulgação

Essa é a primeira vez que Wagner Moura, mais conhecido por seu papel como Capitão Nascimento no filme “Tropa de Elite”, trabalha como diretor. De cara, ele assumiu como desafio reconstruir parte da trajetória de Marighella: poeta, militante comunista desde a juventude, deputado federal e fundador do maior grupo armado de oposição à ditadura, a Ação Libertadora Nacional (ALN).

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O filme, que vai do drama à ação, conta justamente sobre o período mais conturbado e radical da vida do baiano como guerrilheiro. “A minha escolha por esse recorte também atende a vontade de que o filme seja popular, que muita gente veja, sobretudo as pessoas pelas quais Marighella lutava, o que é uma questão quando você pensa que o cinema é um divertimento elitizado no Brasil”, explicou, em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato.

Para Mário Magalhães, autor da biografia, lançar a história de Marighella nas telonas é um ato de coragem. “Ainda mais em tempo de novos censores, que querem impedir que se conte a história como a história aconteceu. Ninguém é obrigado a gostar de Marighella. Mas julgá-lo sem conhecer sua trajetória é estupidez. Marighella nunca provocou tanto amor e tanto ódio. Ele está mais vivo do que nunca”, acrescenta o escritor, quando perguntado sobre a adaptação de seu livro.

Pela escolha do personagem e do recorte, Wagner Moura afirma que o filme encontrou barreiras desde o momento de conseguir financiamento. “Existiu totalmente um boicote. Embora o filme vá estrear no governo Bolsonaro – na época em que a gente estava filmando parecia uma piada isso – mas já vivíamos uma polarização grande e um crescimento do conservadorismo. Eu que sempre fui um artista identificado com a esquerda, então ficou ‘o petralha fazendo filme sobre o terrorista’ e ninguém queria se associar a isso. A gente recebeu respostas agressivas, mas estou seguro do filme que fiz e preparado para a porrada”, garante o diretor estreante, valente assim como seu protagonista e referência de resistência.
Brasil de Fato

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