SUS já enfrenta novos desafios após a maior crise de saúde da história do Brasil

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Sistema Único de Saúde vai receber demanda pós-pandemia desgastado pela emergência sanitária . Foto: Tarso Sarraf/AFP

Procedimentos que deixaram de ser feitos podem causar efeito dominó no sistema, e o poder público precisa se preparar

Na semana que se encerra neste sábado (13), o Brasil teve a confirmação, em números, dos desafios que serão colocados para o Sistema Único de Saúde (SUS) nos próximos anos. Após ter chegado ao colapso na pandemia da covid-19, o SUS vai ter que dar conta da demanda reprimida de outros tratamentos.

Em nota técnica divulgada na terça-feira (9), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) informou que houve diminuição de 1,7 milhão de internações por motivos não relacionados ao coronavírus. O estudo, do projeto Monitora Covid-19, apontou que a queda foi de quase 10%.

A comparação foi feita entre os períodos de  janeiro de 2018 a junho de 2019 e janeiro de 2020 a junho de 2021. Todos os serviços sofreram impactos, menos a oferta de medicamentos. O cenário mais preocupante ocorreu nas cirurgias, que tiveram redução de 53%.

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Na área de doenças respiratórias, o número de pessoas internadas diminuiu 37,7%. Os atendimentos desse tipo para males do aparelho digestivo caíram 27,2%. Na oftalmologia o declínio foi de 34%. Também foi observada queda nas ações de promoção e prevenção em saúde e nos procedimentos clínicos. 

Ainda segundo a análise da Fiocruz, o pior cenário foi registrado no início da pandemia e houve alguma recuperação nos meses seguintes. Ainda assim, os níveis anteriores ainda não foram retomados. 

Essa realidade já causa repercussões no cotidiano das unidades de atendimento, segundo o médico de família e comunidade Aristóteles Cardona, da Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares.

“Isso está presente já tem alguns meses, desde que a gente passou a viver um cenário que apontava para um momento melhor”. Ele conta que os próprios pacientes relatam que deixaram de procurar os serviços de saúde durante a pandemia.

O médico lembra que agendamentos foram suspensos e complexos inteiros foram destinados ao atendimento da pandemia nesse período. Aristóteles alerta ainda que o Brasil terá que lidar também com os pacientes de covid longa, que manifestam sintomas mesmo depois de curados.

“A gente já apontava, no início da pandemia, que isso chegaria. De certa forma, seria inevitável. Mas uma coisa que a gente também sempre fala é que, pelo subfinanciamento, a gente trabalha no limite”, afirma.

Ele ressalta que a demanda reprimida chega a um sistema já desgastado, “a gente ainda vive incertezas com relação ao futuro (da pandemia) e a gente vê, ao longo desses últimos meses, uma necessidade de dar conta de uma demanda muito maior do que o SUS dá conta”.

Crise sanitária desestabilizou tudo

A relação explícita entre desgaste do sistema pelas demandas da pandemia e a diminuição nos atendimentos para outras doenças e condições fica ainda mais evidente na análise dos óbitos que ocorreram no período. O total de mortes por causas não relacionadas à covid aumentou nos piores meses da pandemia.

“Os picos de óbitos observados em 2020 e em 2021 coincidem com o colapso e a diminuição do atendimento por causas não covid-19 durante o processo epidêmico”, afirma a nota técnica da Fiocruz.

Alguns estados e municípios já tentam criar medidas para suprir o que ficou para trás. No Congresso Nacional, um Projeto de Lei da deputada, Gleisi Hoffmann (PT), prevê que o SUS use a estrutura emergencial criada no período de pandemia para atender à demanda reprimida de outros atendimentos.  
 
Em entrevista também nesta semana, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, disse que a pasta busca orçamento para reverter o cenário e que a expectativa é reequilibrar oferta e demanda no próximo ano, mas não deu detalhes.

“É claro que é positivo escutar isso, mas daí a enxergar que isso vire ações concretas, é mais difícil. Inclusive porque, com todos os problemas que a gente tem com financiamento, as coisas só fizeram piorar nos últimos anos”, afirma Aristóteles Cardona, citando o teto de gastos que congela investimentos em saúde por vinte anos.

Segundo ele, é importante ter em mente que o represamento não será solucionado em curto prazo, “É uma demanda que se acumulou por um longo período e os serviços precisam se preparar para isso”, finaliza.
Brasil de Fato

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