Governador do Rio Grande do Sul assume que é gay e expõe as diferenças na esfera LGBTQIA+

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Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, declarou ser homossexual durante entrevista ao programa Conversa com Bial. Foto: AFP PHOTO / AGENCIA PIRATINI / FELIPE DELLA VALLE

Na noite de 1 de julho de 2021 o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, se assumiu gay durante uma entrevista com Pedro Bial na TV aberta, em alto e bom som, para todo mundo ouvir. O governador de um dos estados que elegeu Jair Bolsonaro com maior percentual de votos (aproximadamente 52%) assumiu ser parte da comunidade LGBTQIA+.

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Mas ser “parte dessa comunidade” é algo complexo para cada membro dela. Eduardo Leite e Roberta da Silva são membros da mesma comunidade, mas estão em lados muito distantes desse grupo.

Para quem não se lembra, Roberta da Silva é a mulher de 32 anos que teve 40% do seu corpo trans incendiado por um jovem na madrugada de 24 de junho no Recife (PE) enquanto dormia silenciosa.

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Mas porquê Roberta e Eduardo, membros da mesma comunidade, são tratados de forma tão diferente? A comunidade LGBTQIA+ está cheia de Robertas que dormem nas ruas por se assumirem enquanto correm o risco de serem incendiadas e Eduardos que são convidados para entrevistas ou governar estados.

O que difere Robertas e Eduardos são os privilégios sociais. Eu não conheço Roberta, mas ouvindo histórias de pessoas trans e conhecendo sua curta expectativa de vida de acordo com os dados do IBGE, não é difícil adivinhar quem ou quais circunstâncias levaram Roberta, uma mulher trans a viver na rua.

De acordo com um estudo conduzido pelo Google Brasil em 2019, quanto mais próximo uma pessoa está da “norma”, menos situações de discriminação ela vive. Será esse o caso de Eduardo, um homem gay branco cisgenero?

Talvez você se pergunte “Ok, mas o quê Eduardo’s do Brasil tem a ver com isso se sua forma de ser e agir está próxima da ‘norma’ aceita pela sociedade?”. A resposta é: reconhecer seus privilégios diariamente e usar seus lugares de poder para agir em prol dos menos favorecidos.

Adoraria ter visto Eduardo apoiando outras candidaturas em 2018 durante as eleições (e não a de Bolsonaro, que ele já disse não se arrepender) e usando seu privilégio normativo para defender, além do seu estado, os membros de sua comunidade. Comunidade essa que deve muito – senão tudo – de sua luta a corpos trans massacrados pela violência dia e noite, mesmo quando estão apenas em silêncio, dormindo no Cais de Santa Rita no Recife.

Me alegra ver um membro da comunidade se assumindo, ainda mais na TV aberta que anos atrás mudava final de novela para cortar beijo gay da transmissão, mas ainda há muito a ser discutido e privilégios que podem servir para salvar vidas, não apenas ganhar eleições.
Matheus Albino

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