Bolsonaro pediu que na prova do Enem o golpe de 1964 fosse trocado para “revolução”

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Os anos após o AI-5 foram os mais violentos da ditadura militar. Foto mostra desfile de 7 de setembro em 1972

Interferência foi relatada por servidores. Presidente disse nesta semana que questões terão a “cara do governo”. Exame começa a ser realizado no domingo, após debandada na equipe que organiza a prova.

O presidente Jair Bolsonaro pediu ao ministro da Educação, Milton Ribeiro, que o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) deste ano tivesse questões que tratassem o golpe militar de 1964 como uma “revolução”, segundo informações do jornal Folha de S.Paulo.

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Servidores do governo relataram ao jornal que Bolsonaro fez o pedido no primeiro semestre, e que Ribeiro tratou do tema com funcionários do Ministério da Educação e do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), que organiza o exame, mas não teria havido mudança nas questões.

O Enem deste ano começa a ser realizado no domingo (21/11) por 3,1 milhões de candidatos e é o principal meio de acesso ao ensino superior do país.

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Esta edição ocorre em meio a uma crise provocada pela debandada, na semana passada, de 37 servidores do Inep, que pediram exoneração acusando o órgão de desconsiderar critérios técnicos e promover assédio moral para retirar da prova questões que desagradassem o governo.

Nesta sexta-feira, o Tribunal de Contas da União abriu uma investigação para apurar as denúncias dos servidores.

O uso do termo golpe militar para definir os acontecimentos de 1964 é majoritário entre os historiadores. O termo “revolução” era usado pelos militares e civis que conduziram o golpe, até como uma forma de tentar pintar a ruptura institucional como um ato legítimo. Hoje em dia, o uso de “revolução” para se referir ao golpe continua sendo associado a defensores do antigo regime militar.

A ditadura teve início com a derrubada do governo do então presidente democraticamente eleito, João Goulart, e foi marcada por censura à imprensa, fim das eleições diretas para presidente, fechamento do Congresso Nacional, tortura e assassinato de dissidentes e cassação de direitos.

Bolsonaro é um defensor do golpe militar de 1964 e já homenageou torturadores do regime. Em seu primeiro ano como presidente, ele determinou que o Ministério da Defesa comemorasse a data do golpe, o que vem sendo feito.

Bolsonaro e Enem

A intenção de Bolsonaro de interferir no conteúdo das questões do exame já foi manifestada pelo presidente diversas vezes. Nesta segunda-feira, ele disse que o Enem deste ano estaria mais alinhado aos princípios do governo.

“Agora, começam a ter a cara do governo as questões da prova do Enem. Ninguém precisa estar preocupado com aquelas questões absurdas do passado, temas de redação que não tinham nada a ver com nada”, afirmou.

Em 2020, Bolsonaro criticou uma questão do exame daquele ano que tratava da desigualdade salarial entre os jogadores de futebol Neymar e Marta, estrelas das seleções masculina e feminina. Ele considerou a pergunta “ridícula”.

Segundo a Folha, desde 2019, quando Bolsonaro tomou posse, o Enem não inclui questões sobre a ditadura militar, algo inédito para o exame. Neste ano, servidores do governo relataram ao jornal temor com possíveis punições se a prova desagradar o presidente.

Uma reportagem veiculada no último domingo pelo programa Fantástico, da TV Globo, apontou que o governo pressionou servidores para retirar pelo menos 20 questões de uma primeira versão da prova deste ano, que tratavam de temas históricos, sociais, políticos e econômicos.

Servidores do Inep relatam que Bolsonaro pediu alterações nas provas, mas não teria havido mudança nas questões

Escolha das questões do exame

As questões utilizadas no Enem são retiradas do Banco Nacional de Itens (BNI), organizado pelo Inep. Esse banco é formado por questões elaboradas por professores com experiência em criação e revisão de itens do ensino médio e contratados por meio de edital público. As questões elaboradas pelos professores passam por revisão, e as autorizadas por especialistas em cada área integram o BNI.

Para preparar o Enem, especialistas do Inep e professores acessam o banco e selecionam as questões que serão utilizadas. Há ainda uma calibragem para que para que os exames tenham um nível de dificuldade semelhante todos os anos.

Neste ano, o Ministério da Educação tentou incluir 22 professores que não haviam sido aprovados pelo processo seletivo público na equipe que escolhe as questões para a prova, segundo o jornal O Estado de S. Paulo. A lista incluía apoiadores do presidente, uma professora de biologia criacionista e quatro professores ligados à Universidade Mackenzie, origem do ministro Ribeiro.

Houve reação dos servidores do Inep e o presidente do órgão, Danilo Dupas, que segundo o jornal teria participado da formulação da lista, acabou retirando os nomes da relação dos professores que selecionam as questões.

Nesta quarta-feira, diversas entidades educacionais moveram uma ação civil pública pedindo o afastamento de Dupas, sob o argumento que sua gestão poderia causar danos gravíssimos à realização do exame. No mesmo dia, o ministro Ribeiro afirmou em audiência na Câmara dos Deputados que não houve “ordem de cima” para trocar questões do Enem.
DW

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